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Artista cria pinturas expressivas para dar visibilidade a moradores de rua

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Artista retrata moradores de rua em casas abandonadas (Foto: Alfredo Maffei/Arquivo Pessoal)

Do G 1- Casas abandonadas e moradores de rua têm um significado especial para o artista plástico de São Carlos (SP), Alfredo Maffei. A partir do contato com a situação de mendigos espalhados e ignorados na cidade de São Paulo (SP), o jovem de 26 anos deu início ao projeto que traria um grande reconhecimento a seus trabalhos. A série ‘Inconstâncias: Olhares Invisíveis’, busca chamar a atenção das pessoas para a história e os olhares de moradores e construções esquecidas pela sociedade moderna. Acima de tudo, Maffei busca maneiras de tocar o ser humano incitando suas dores reprimidas.

 

 


dsc 0967Maffei começou a pintar ainda criança São Carlos (Foto: Alfredo Maffei/Arquivo Pessoal)

Maffei deu início à sua trajetória na arte ainda pequeno, influenciado pela família e pelos amigos. “Cresci em meio a uma biblioteca imensa de livros de arte, mitologia, quadrinhos, histórias e fantasia.

Tudo isso, junto às ilustrações, me interessavam muito. Sempre quis expressar minhas imagens mentais e fui influenciado a desenvolver a arte. Minha mãe me dava um lápis e um papel para que eu me acalmasse e eu ficava desenhando.

O que eu tinha era quadrinhos como referência, e era o que usava. Aos 14 anos, com uma vontade muito maior do que meu talento, ingressei em uma escola de artes em São Carlos. Costumo dizer que meu professor foi muito mais um mentor, pois ele conseguia lapidar cada aluno de acordo com as aptidões, e foi o que aconteceu comigo”, contou.

Aos 17 anos, ainda durante o ensino médio, o artista realizou uma viagem de intercâmbio ao México, onde surgiram as primeiras inspirações para o trabalho que viria a desenvolver no Brasil. “Foi uma experiência muito rica, pois para um adolescente de 17 anos sair de São Carlos, do conforto de todas as facilidades que sempre tive, para um país no qual não conhecia a língua nem os costumes, é um impacto grande.

Foi onde me encontrei como pessoa e continuei sendo influenciado na arte pelas pessoas ao meu redor. O contato com a arte mexicana fez eu me apaixonar pela área e foi quando eu decidi que era o que eu queria fazer da minha vida: ser um artista”, afirmou.

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Artista pintou morador de rua conhecido em São Carlos (Foto: Alfredo Maffei/Arquivo Pessoal)
Artista pintou morador de rua conhecido em São
Carlos (Foto: Alfredo Maffei/Arquivo Pessoal)

Os murais mexicanos feitos a céu aberto em muros e paredes de residências chamaram a atenção do jovem pelas cores fortes e vibrantes, mas principalmente pelos sentimentos que geravam no observador. “A cultura indígena é muito presente na sociedade mexicana.

As pessoas disseminam esse tipo de arte por todos os lados, está presente no cotidiano das pessoas. Haviam murais pintados por artistas como Diego Rivera e Frida Kahlo e me inspirava muito. Frequentei um curso de artes na escola e durante o meu tempo livre aprimorei minhas habilidades.

Queria voltar ao Brasil com uma identidade já formada. A arte muralista era muito próxima do que o que eu queria passar como artista, porque é muito expressiva, dramática e retrata emoções de uma maneira muito forte. Foi quando decidi me apropriar de grandes espaços urbanos como suporte e desenvolvi meus primeiros trabalhos em murais”, lembrou.

Concepção

Ao regressar ao Brasil, Alfredo Maffei ingressou no curso de Artes Visual do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. A mudança para uma grande metrópole causou um grande impacto no artista e mudaria o rumo de seus trabalhos. “Vindo de uma cidade pequena como São Carlos, é estranho chegar em São Paulo. Ao mesmo tempo, assim como no México, a cidade oferecia muita inspiração em termos de artes por todo o lado, é um museu a céu aberto.

Em contrapartida, alguns fatores sempre mexeram comigo, como os moradores de rua. Não estava acostumado a ver tanta gente morando na sarjeta como acontece em São Paulo, muito menos com a grande quantidade de imóveis, na maioria das vezes belos projetos arquitetônicos, abandonados. Andei muito pela cidade e ficava indignado pela maneira como as pessoas passavam pelas casas e pelos mendigos com indiferença, sem notar sua presença. Somos condicionados a ignorar essas coisas”, comentou.

Ficava indignado pela maneira como as pessoas passavam pelas casas e pelos mendigos com indiferença, sem notar sua presença. Somos condicionados a ignorar essas coisas"

Alfredo Maffei, artista

Foi durante uma dessas caminhadas que Maffei conheceu um morador de rua que daria início ao trabalho que o faria ganhar grande reconhecimento no meio artístico. “Indo para a faculdade, sempre passava por um morador a quem chamava de ‘Barbinha’, e nos cumprimentávamos.

Certo dia ele me convidou para tomar um refrigerante e eu aceitei para ver onde aquilo ia me levar. Ele se abriu e me contou a história dele e me senti muito bem depois disso.

Pode parecer piegas e romântico, mas senti uma ligação espiritual com essa situação. Voltei para casa e não conseguia parar de pensar nisso.

Continuei passando por lá e parava para conversar com o Barbinha, me interessei em conhecer as histórias dessas pessoas, sempre a partir dos olhares. Os olhares desses moradores me convidavam a querer conhecer sua trajetória.

A partir daí as coisas foram se juntando, a vontade de trabalhar em murais de centros urbanos, retratar situações dramáticas e fortes, tudo se encaixou perfeitamente. Encontrei um tema que poderia retratar, que me tocava de fato e que eu queria expressar para os outros. Não era pela questão social ou política, era apenas humanístico, queria mostrar esses olhares e as histórias por trás deles”, afirmou.

A partir desse momento, o artista deu início à série Olhares Invisíveis. A proposta era a de retratar os olhares de moradores, bem como suas feições e trejeitos, em edifícios abandonados. “Assim como existem casas sem pessoas, existem pessoas sem casas. A situação da casa é a mesma do morador, ao meu ver. Pintar essas faces em uma tela não teria o mesmo efeito.

A casa dá pistas do que a obra se trata, há uma textura diferente em cada edifício, em cada história, e é por isso que assim como escolho os moradores, também é preciso um certo cuidado para determinar em quais casas farei as pinturas.

Costumo não levar escadas e outros suportes e me utilizo apenas do que houver naquela residência para fazer a obra. Cada casa traz um desafio novo e diferente. Sentir a casa e o morador é um trabalho espiritual. O retrato é apenas o resultado dessa experiência”, explicou.

Reconhecimento

O trabalho rendeu oportunidades para o artista, como uma exposição na França. “Fui convidado a expor meu trabalho em um museu na França e aproveitei para pintar um morador que conheci no porto de Marselha. A cultura européia é muito ligada à arte e as pessoas apreciam muito a arte urbana. Foi muito gratificante poder fazer parte disso”, falou.

Hoje o jovem afirma já ter entrevistado mais de 50 moradores de rua, mas nem sempre pôde retratá-los como desejava. “Alguns têm medo de que isso vá causar problemas. Outros não entendem do que se trata, e não vou pintar nada sem a autorização consciente dessas pessoas. O que quero é criar algo para que as pessoas olhem para essa situação de forma mais apurada”, apontou.

De acordo com Maffei, os resultados das obras são sempre satisfatórios por conta da reação dos retratados. “Eles ficam maravilhados com o resultado, se sentem gente, se sentem abraçados, vistos e reconhecidos.

É uma coisa maravilhosa, eles agradecem, abraçam. É uma forma de agradecer a eles também, pois também fui tocado pela experiência e passei a ver a vida com outros olhos. As dores dessas pessoas nos fazem refletir sobre nossa própria dor. O papel da arte não é ser apenas crítica, é preciso um viés humanístico nela também”, garantiu.

Por serem feitas em casas abandonadas, muitas vezes as obras acabam demolidas e desaparecem, impossibilitando a visita de novos olhares e um retorno financeiro para o artista.

Ainda assim, nas vezes em que recebeu algo pelo trabalho, Maffei compartilhou a metade dos lucros com os mendigos. “Eles não entendiam o motivo de estarem recebendo o dinheiro, alguns nem se lembravam do retrato quando eu voltava. Mesmo assim, não acho certo me apropriar integralmente de uma obra que, na verdade, foi realizada em conjunto.

A minha ideia agora é de reverter todo o lucro futuro que vier desses trabalhos para ajudar instituições de auxílio a moradores de rua. Já ministrei um curso de educação artística para essas pessoas, explorando o potencial sensível delas. Era uma forma para tirá-los do cotidiano duro e fazê-los sentir úteis e vivos. Isso me mostrou o quanto eles queriam se expressar e falar sobre suas vidas, contar suas histórias”, alegou.

Dedo na Ferida

Em seu trabalho final na faculdade de artes visuais, Maffei decidiu criar um desdobramento da pesquisa pela identidade invisível dos moradores de rua. Foi quando nasceu o projeto ‘Dedo na Ferida’. “Percebi que a maioria deles não tinha carteira de identidade.

Quando perguntava, na maioria dos casos eles me diziam que policiais tinham levado embora. Acredito que seja uma forma de apagar esse fardo da sociedade. Foi então que decidi pintar suas impressões digitais com mais de dois metros de altura e pregá-las próximas ao local em que essas pessoas moravam. É como um interruptor que acende uma luz para a situação.

Existe uma pessoa morando ali, ela tem nome, impressão digital. É uma ferida que tentamos esconder, e por isso só a sentimos quando colocamos um dedo nesse machucado”, afirmou.

Atualmente morando em São Carlos, o jovem aponta seu trabalho favorito como o último que realizou na cidade, pintando um morador de rua utilizando papelão e materiais encontrados na sarjeta. “O último que fiz foi em São Carlos, e é meu favorito no momento.

É um morador conhecido como Buda, que já é bem conhecido pela cidade. É uma figura que todo mundo já viu, mas poucos notam. Eu mesmo demorei tanto para notar uma pessoa com quem convivi a vida toda. Já havia tentado falar com ele, mas me parecia inacessível e distante. Foi um desafio, ainda mais pelo fato de que a obra teria que ser móvel.

Decidi criá-la em papelão, pois é um material que faz parte da rotina dessas pessoas, costuma ser o abrigo delas. Também usei trapos que encontrei pela rua para compor a textura da obra. Além disso, esse material é visto como descartável, e está em toda a esquina, assim como os mendigos. No fim, o resultado agradou a todo e ofereço como um presente para a cidade”, explicou.

Maffei afirma que pretende dar continuidade à série e comenta os planos para o futuro. “A vida é uma constante integração de pessoas e por isso é importante olharmos para todos. Quero disseminar minhas idéias sobre a força da humanidade quando são feitas ações em conjunto, quando se olha para o próximo. Podemos mudar o mundo. A arte tem esse poder e quero ser uma ferramenta para que aconteça”, finalizou.

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Projeto com moradores de rua rendeu exposições internacionais ao artista de São Carlos (Foto: Alfredo Maffei/Arquivo Pessoal)

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