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O itapolitano Lucas, na Unidade de Experimentação Animal, onde realizada suas pesquisas

por Karina Cardili/ redação RN- O uso de álcool e drogas ilícitas é considerado hoje um dos maiores problemas sociais do país. De acordo com uma pesquisa divulgada no Relatório Global sobre Álcool e Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil, o consumo de álcool é 40% maior do que a média mundial. Além disso, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam o aumento do acesso precoce a bebidas alcoólicas e a drogas ilícitas. Ou seja, o brasileiro vem ingerindo bebidas alcoólicas cada vez mais cedo. Mas porque algumas pessoas são mais propensas a se tornarem dependentes de álcool e drogas do que outras?

Esta é uma pergunta que cientistas do mundo inteiro tentam responder, dentre eles, o biólogo itapolitanoLucas Albrechet de Souza, 34, que há mais de quatro anos integra um grupo de pesquisas composto por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre e da TuftsUniversity de Boston (EUA)que estuda a relação entre o estresse e a dependência química.

 

De acordo com Lucas, um dos desafios atuais da pesquisa sobre dependência asubstâncias psicoativas (como álcool e outras drogas ilícitas) é a identificação e caracterização dos fatores responsáveis pela transição do uso controlado ao uso abusivo. Ou seja, o que faz com que algumas pessoas bebam ‘socialmente’ enquanto outras se tornem dependentes?

Através de pesquisas, ele conclui que o estresse induz ou deixa os individuos mais propensos a consumirem álcool e cocaina.

“Além das diferenças genéticas e de características associadas à própria droga, fatores ambientais e sociais parecem contribuir de maneira decisiva para o desenvolvimento das dependências químicas. Diversos estudos demonstraram que o estresse social é capaz de promover alterações duradouras nas vias de recompensa do cérebro, de maneira a promover uma maior liberação de dopamina e aumentar assim o efeito reforçador das drogas. Nesse sentido, atuamos na investigação dos mecanismos neurológicos associados ao estresse social, ansiedade e agressividade, que podem levar ao consumo abusivo de álcool e cocaína”.
Os testes são realizados em camundongos na Unidade de Experimentação Animal, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

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“Os camundongos que não têm experiência com luta são confrontados durante dez dias consecutivos por machos maiores e agressivos da mesma espécie. Depois de um tempo, ofereço a eles um frasco com água e outro com álcool. Os camundongos que sofrem as agressões consomem muito mais álcool do que os animais que não passam pelo estresse. Eles desenvolvem também sintomas de ansiedade e ocorre uma série de alterações químicas no cérebro. Isso aponta para o fato de que pessoas que passaram por algum tipo de estresse psicossocial podem ser mais suscetíveis ao uso abusivo de álcool e drogas do que outras. Vale ressaltar que realizo minhas pesquisas com camundongos machos adultos, mas outros trabalhos indicam que adolescentes que sofreram algum tipo de violência (não só física, como também psicológica), podem estar mais propensos a se tornar dependente químicos na vida adulta”; explica Lucas.

Ele explica ainda que o passo seguinte é descobrir quais são as alterações que ocorrem no cérebro destes animais para que se tornem mais propensos ao consumo das substâncias químicas. “Quero entender como o estresse afeta o cérebro de maneira a tornar os indivíduos mais propensos ao uso de álcool e cocaína. Uma vez que entendermos este mecanismo poderemos produzir medicamentos muito mais eficazes e mais específicospara a prevenção e o tratamento desses transtornos”.

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HC de Porto Alegre

De acordo com Lucas, algumas drogas estão em fase inicialde testes em países como os Estados Unidos.

“Ainda há muito para ser estudado. Estou trabalhando com uma droga que parece bloquearos efeitos do estresse no cérebro. Mas ainda é preciso realizar muitos testes e entender seus efeitos colaterais no corpo. Não posso dizer que a cura para a dependência química está pronta, mas está a caminho”; conclui.

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*Lucas é formado em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, fez Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Psicobiologia também na USP e outro Pós-Doutorado em Psicofarmacologia na TuftsUniversity, em Boston, nos Estados Unidos. Atualmente é pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalha em parceria com a TuftsUniversity e desenvolve suas pesquisas no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

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