Do G1- O cirurgião plástico Jayme Farina Júnior, do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP), disse nesta segunda-feira (21) que a equipe médica da unidade estuda a utilização de células-tronco para reconstrução dos crânios das gêmeas Allana e Mariah, de 1 ano e 10 meses, que nasceram unidas pela cabeça.

 

A informação foi confirmada durante entrevista coletiva no campus da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto.

O procedimento, segundo o cirurgião plástico, pode acontecer após a quarta e última neurocirurgia para separação das crianças, prevista para 2023.

"Estamos estudando a possiblidade da incorporação de tecnologia para melhoria da cranioplastia [cirurgia para recuperação da função protetora do crânio] com células-tronco. Seria doado pela própria criança e não haveria rejeição. Estamos em uma fase de evolução desse projeto, mas é uma possiblidade que a gente almeja", afirmou o cirurgião.

As células-tronco são conhecidas por constituírem diferentes tipos de tecido para o corpo. O uso delas é comum no tratamento de doenças como mal de Parkinson, câncer e Alzheimer.

A implementação dessa tecnologia não aconteceu no caso das gêmeas Maria Ysabelle e Maria Ysadora, que também nasceram unidas pela cabeça e foram separadas pela equipe do HC em 2018.

"O principal objetivo da cirurgia plástica, em todos os momentos, é a reconstrução do crânio. É uma cirurgia reparadora, e das mais complexas do mundo, porque casos como esses são raríssimos. Mas a gente fica confiante porque já fizemos um procedimento exitoso em 2018", disse Farina.

Recuperação

O segundo procedimento para separação das irmãs Allana e Mariah durou nove horas e foi concluído no sábado (19). Na ocasião, estiveram presentes mais de 40 profissionais de saúde.

A chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Infantil do HC, Ana Paula Carlotti, disse que as crianças estão se recuperando do procedimento.

"As meninas não tiveram nenhuma intercorrência no pós-operatório. Os sinais vitais estão normais, estão conversando e movimentam os quatro membros normalmente. Aparentemente, não há nenhum déficit neurológico relacionado ao procedimento cirúrgico. Estamos bem satisfeitos de ver essa evolução que está indo muito bem", afirmou.

A primeira cirurgia aconteceu em agosto deste ano e também foi bem sucedida.

Próximos passos

Chefe do setor de neurocirurgia pediátrica do HC, Hélio Rubens Machado explicou que, nessa segunda cirurgia, foi atingida a metade da separação dos crânios.

Assim como no primeiro procedimento, os médicos também seccionaram as veias do cérebro que une as duas meninas.

"Nós planejamos quatro cirurgias para fazer a separação total. Na primeira, a gente separa um quarto, na segunda, a gente atinge a metade. A única diferença entre uma e outra é que a gente progride na separação da circulação cerebral das crianças", contou o neurocirurgião.

Estão previstas mais duas neurocirurgias até a separação das gêmeas, além de uma quinta cirurgia para reconstrução dos crânios. O próximo procedimento está previsto para março de 2023, enquanto a quarta neurocirurgia aconteceria em junho.

O quinto procedimento, a cranioplastia de cada menina, aconteceria na mesma data da última neurocirurgia, segundo Machado.

Acompanhamento

Os pais de Allana e Mariah são de Piquerobi (SP). O caso delas é acompanhado no HC desde a gestação e o parto das crianças ocorreu no hospital de Ribeirão Preto.

Antes disso, a mãe das meninas, Talita Francisco Ventura Sestari, disse que chegou a ser desencorajada de levar a gravidez adiante ao descobrir a malformação.

A anomalia é considerada rara, com registros de um caso no mundo a cada dois milhões de nascimentos, segundo o neurocirurgião Hélio Rubens Machado.

No último sábado, a equipe realizou novas secções de vasos sanguíneos. Desde a primeira cirurgia, os profissionais utilizam tecnologia de ponta para os procedimentos. Eles contam com exames clínicos, laboratoriais e de imagem de ressonância magnética e tomografia computadorizada integrados em sistema de realidade virtual.